Um bom começo pro meu portfólio profissional é falar do primeiro emprego.
A livraria Siciliano me proporcionou, entre 2002 e 2003, estar próximo do que eu mais amava: os livros (soa meio babaca, né?). Ao mesmo tempo, pude aprender um pouco sobre rotinas corporativas, obrigações, resultados e outro tanto de politicagem empresarial, boas maneiras, atendimento ao cliente, uma infinidade de coisas que um cara de 18 anos precisa para começar no mercado de trabalho.
Inclusive, nesta empresa eu me inscrevi para a vaga de estoquista, que eu julgava mais obscura, ou mais apagada, mais fácil de lidar, aparentemente. Acontece que, durante a conversa, a gerente K. me entendeu como alguém que poderia falar melhor de livros do que somente registrá-los num sistema. Então ela me deu a negativa para a vaga de estoquista e a oportunidade de começar como vendedor de loja.
Neste período, conheci a rotina de um livreiro, o trato com as editoras, as listas de mais vendidos, as organizações por seção. Também pude conhecer como funciona o recebimento das bancas de revistas, os encalhes. Foi uma excelente primeira experiência pré-faculdade de Jornalismo.
Montando relatório antes de ser modinha
O que eu considero um grande feito dessa época foi o relatório que criei para as reuniões mensais.
Um dos problemas para todos nós vendedores daquela loja era o começo do mês seguinte, em que precisávamos extrair e organizar os números comparativos de estoque e venda da seção que cuidávamos para mostrar na reunião com o gerente, encarregados e equipe.
Claro, no estoque tinha um post-it com uma conta anotada numa prateleira cuja ideia era explicar como calcular o crescimento mensal e anual, mas o conhecimento mesmo de como fazer (ou como entender um post-it já quase apagado pelo tempo) era meio passado de pessoa para pessoa, sem nada minimamente documentado. Se todo mundo ganhasse num bolão da mega-sena, os vendedores que entrassem no nosso lugar não saberiam fazer as contas, basicamente.
Eu transformei esse conhecimento e as anotações do estoque numa espécie de framework (obviamente sem saber o que era um framework na época) que detalhava o passo a passo que o vendedor precisava fazer para extrair os dados e fazer os cálculos, com campos definidos para a pessoa simplesmente preencher, usar a calculadora e levar na reunião.
Pensando um pouco melhor, eu acabei fazendo uma pesquisa interna entre os vendedores (é mais fácil quando são seus amigos) e entendi que campos e que explicações precisariam constar naquele relatório. Criei, fiz umas 20 cópias e distribuí para toda a equipe que, a partir de então, começou a usar em cada reunião mensal (vale dizer que estamos falando aqui de 2002, a época do papel, do físico, do Código da Vinci bombando e não dos celulares ou do fácil acesso aos notebooks).
Deixei a loja meses antes de começar a faculdade de jornalismo.
Last modified: agosto 4, 2026
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